domingo, 11 de abril de 2010

Os segredos de Campanella para o ótimo O segredo dos seus olhos






Michel Haneke já tinha o discurso pronto para o seu A Fita Branca, dado como certo na categoria de filme estrangeiro no Oscar deste ano. Ele, mais a crítica, quem assistiu ao filme (maravilhoso, aliás) e os presentes na cerimônia do Teatro Kodak.
Surpresa talvez não seja a palavra adequada para definir a vitória de Juan José Campanella com O Segredo dos Seus Olhos. Foi a segunda indicação do cineasta argentino - a anterior foi com O Filho da Noiva - e o segundo troféu conquistado por aquele país na categoria (o que deixou a imprensa brasileira desnorteada, se perguntando o que o cinema argentino tem que falta ao nosso, como se Oscar , um prêmio da indústria, fosse o único norte para se avaliar toda uma cinematografia).

Como muitos, não pude assistir ao filme de Campanella quando ele foi exibido meses atrás, em curtíssima temporada. Vencedor do Oscar, foi espertamente relançado, com sessões lotadas, filas e um boca a boca que deve prolongar a exibição por mais algumas semanas - na Argentina já se tornou a fita mais assistida na história daquele país.

Em termos essencialmente cinematográficos, A Fita Branca é um filme mais denso, complexo, norteado por sutilezas e aberto a múltiplas leituras, das políticas às psincanalíticas. É "mais filme" que a obra de Campanella.

Mas O Segredo dos Seus Olhos é, em sua essência, uma grande estória, destas tão bem contadas que se tornam irresistíveis e deixam o espectador intrigado e grudado na poltrona até o último segundo. Ótimos roteiros não são novidade para quem acompanha o trabalho de Campanella, que escreveu e dirigiu O Filho da Noiva, O Mesmo Amor, A Mesma Chuva e Clube da Lua, filmes populares em seu país e por aqui. Tramas milimetricamente amarradas, onde cada personagem, diálogo, cenário e objetos são pensados para se articular ao todo e ajudar a sustentar um drama recheado com surpresas, suspense e bom humor.

Todos estes elementos sobram em O Segredo de Seus Olhos, uma fusão de filme policial com drama amoroso. A leveza e a segurança com que Campanella transita entre os dois registros é o grande apelo do filme. Em sua velhice, o funcionário público aposentado Esposito (o ótimo e carismático Ricardo Darin) é atormentado pelas lembranças de assassinato cujo autor nunca foi preso.

O filme pula do presente para o passado e nestes pulos acompanha-se uma relação mal resolvida entre Espósito e sua chefe, a juíza Irene. Tanto o romance quanto o crime vão ocupar os dois durante décadas. Reviravoltas, revelações surpreendentes, uma crítica aos crimes da ditadura peronista e à ineficàcia do sistema judicial argentino pontuam o filme, que até o seu final consegue deixar todas as possibilidades abertas para a sua resolução.

Campanella é sóbrio e simples na abordagem de todo este caldeirão e procura equlibrar os recuos temporais com simplicidade, sempre valorizando os diálogos (em seus filmes os personagens falam bastante) tomando o cuidado de jamais espetacularizar o material que tem em maos.

Há uma brecha no tom adotado, que merece ser citada, pelo seu brihantismo técnico e artístico. É aquele plano sequencia no estadio de futebol, que começa com uma tomada aérea, passeia entre torcedores, corredores e banheiros e termina com o suspeito detido no gramado.

Já entrou para a história do Cinema como um dos grandes momentos sem cortes, ao lado das aberturas de Touch of Evil (Welles), O Jogador (Altman) e o final de Passageiro Profissão Repórter.

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